Pelourinho faz festa pelos 81 anos de Clarindo Silva
O Pelourinho estava em festa nesta quinta-feira (16), para celebrar os 81 anos de uma pessoa fundamental para a história daquela região: Clarindo Silva, o dono da Cantina da Lua desde 1971. Agitador cultural, empresário, escritor, líder comunitário e muito mais, Clarindo foi apontado por diversas pessoas com quem o CORREIO conversou como um símbolo de resistência do Pelourinho.
O produtor cultural Geraldo Badá organizou a festa dos 81 anos e chamou artistas como Toti Gira (compositor de O Canto da Cidade, sucesso de Daniela Mercury), Armandinho e Claudia Costa para se apresentarem.
“Clarindo é uma resistência no Pelourinho. Passou por altos e baixos, mas sempre resistiu. Hoje, tenho uma luta pra revitalizar a Baixa dos Sapateiros. E essa minha luta se inspira na luta dele pela sobrevivência do Pelourinho”, diz Badá sobre o amigo que conhece há 40 anos.
Como lembra Badá, Clarindo começou como empregado de Renato Santos, dono original da Cantina. Em 1971, arrendou o espaço, que até ali só servia bebida. Atento às oportunidades e com talento de empreendedor, Clarindo pendurou um cartaz feito de cartolina: “Não coma sem se alimentar”. Em seguida, inseriu um inusitado tira-gosto no cardápio: ovo cozido colorido acompanhado de Ki-Suco. O dono da Cantina garante que foi um sucesso e daí em diante só fez incrementar o cardápio.
Finalmente, em 1975, Clarindo comprou o espaço na mão de Renato Santos. Na época, o restaurante se resumia a duas tímidas portinhas. A ampliação só veio mais tarde, quando passou a ocupar o segundo andar da casa. A área externa, hoje usada para apresentações musicais, também não existia.
Reduto do samba
Lá em cima, apresentavam-se sambistas baianos históricos: Edil Pacheco, Ederaldo Gentil, Batatinha, Riachão, Claudete Macêdo… Uma das frequentadoras era a poeta Vitória Régia, 61 anos, que foi à Cantina nesta quinta-feira dar os parabéns ao amigo: “Eu comecei a vir com minha mãe para acompanhá-la, quando eu tinha uns 30 anos, mas achava aquilo um porre”, confessa, referindo-se à mãe, também poeta, Clotilde Sampaio.
Mas depois de um tempo, Vitória Régia passou a frequentar por vontade própria e hoje continua indo assiduamente. “Tanto que Clarindo é o baiano que mais sabe da minha vida”, afirma. “Na época que comecei a vir, se apresentavam todos esses sambistas. Mas a estrela mesmo na época era Claudete Macêdo, que sempre a era a última a cantar. E por isso, o pessoal fazia um trocadilho: chamava ela de Claudete ‘Maistarde'”, recorda-se a poeta, que nos anos 1980 morava no Pelourinho.
A servidora pública Madu Cidreira, 52, estava com a amiga Virgínia e frequenta a Cantina há uns 15 anos. As duas se conheceram ali mesmo. “Este é um lugar de resistência”, diz Madu. A servidora pública diz isso com base no livro Memória da Cantina da Lua, que Clarindo lançou em 2016. “Clarindo luta para que o Pelourinho permaneça vivo. Já vim a muitos eventos aqui, como a homenagem a Riachão e o Dia do Samba. Mas hoje estou aqui para dar os parabéns a Clarindo”.
Mas, o início da Cantina foi complicado, segundo Clarindo, porque a classe média evitava frequentar o Pelourinho: “O Centro Histórico era associado a marginalidade e à prostituição, então as pessoas tinham medo de vir”. A área, segundo Clarindo, começou a ficar abandonada depois da saída de importantes órgãos públicos que funcionavam ali, como o Incra, o IML e o Baneb.
ACM
Mas a reforma realizada pelo Governo do Estado nos anos 1990 contribuiu para aumentar a frequência do Centro Histórico e diminuir o preconceito que muitos tinham com a região. Foi nessa época que Clarindo se aproximou de ACM, então governador do Estado.
“Eu conversava muito com ACM; eu estava me aproximando de alguém que abraçou meu projeto, que tinha uma visão parecida com a minha”, recorda-se Clarindo.
Clarindo sempre afirmou ser grato por essa obra realizada por ACM, então governador da Bahia. Mesmo com a morte do político, o dono da Cantina manteve amizade com a família, especialmente com Antonio Carlos Júnior, presidente do Conselho de Administração da Rede Bahia, e sua esposa, dona Rosário Magalhães.

